quinta-feira, março 24, 2011

O Lixo [Pt. 2]



Acorda com o corpo dolorido...



-O que houve ontem? Não consigo me lembrar.

Ao virar ligeiramente sua cabeça para a esquerda, uma linda mulher. - Quem será?

Tento me vestir o mais rápido que posso mas não consigo sequer ficar em pé. Que droga, onde estou? Parece um quarto sujo e largado a anos. Na janela escuto franceses discutindo. Bem quando uma doce voz ecoa da cama: - Obrigado por ontem, já pode ir.

- Obrigado pelo que? 
- Você já teve sua serventia, agora vá...

Não posso simplesmente ir, não tenho pra onde ir. Casa é para onde sempre podemos voltar, não tenho esse luxo, esse lixo. E o único sentimento que me assola no momento é a luxúria. E é tão bom. Vou deixando que venha até mim e me faça seu escravo. Atenderei todas as tuas vontades e caprichos... Viverei para ti. Só não me abandone como já abandonei a todos. Abandonei a mim.

Ainda assim, me sinto estranho. Ontem ouvia um bom Jazz. Agora, caos.

Enquanto ela se vestia, eu me sento sujo.

Ao abrir a porta. Dois homens enormes já me aguardavam. Com voz rouca diziam: - Estamos lhe aguardando senhor, venha conosco e não resista por favor.


Como um pedido de casamento de tão sutil, não tive como negar. Entrei em uma carroagem. Só queria saber para onde me levariam a seguir.



[Continua...]

terça-feira, março 22, 2011

Tédio

Fiz de tudo pra você perceber que era eu, ali no canto. Canto que é de cor, que era pra eu me livrar do resto, todo ele... Cercado por espelhos deformados conseguia me ver perfeitamente. E eu por final sei o meu lugar pois tinha tudo e apenas não sabia mais onde ir. 

Paz, é tudo o que eu quero. De tanto perseguir a tranquilidade, me cansei e o tédio veio e me bateu na cara. Ontem sabia exatamente a receita do bolo, como ser e deixar de ser. Hoje, mal sei meu nome...

Queria ser forte assim, destemido... Mas não! Existe alguém que está sempre ali desequilibrando a equação, aquele que te faz mudar de ideia... Te faz sorrir e chorar ao mesmo tempo. Por isso, arranquei o meu e enterrei bem fundo onde ninguém poderia descobri-lo.


Mas ele ainda bate com força. E a cada batida meu mundo estremesse. Mundo este que fica na minha cabeça, usa meus olhos como janelas e a boca como válvula de escape. 

Ouvi dizer por ai que as coisas já não são mais como antes. As pessoas já não são mais as mesmas... Eu sou o mesmo. Decretei assim o meu fim.

sexta-feira, março 18, 2011

O Lixo [Pt. 1]


Num Pub qualquer no subúrbio de Londres. Era 1934, rumores de que o estavam procurando preocupavam. Não sabia sequer se duraria mais um dia. Enquanto isso Jazz. 

- O que vai querer amigo?
- Vodka...

Enquanto o doce veneno descia queimando em sua garganta um novo som ecoava do palco. Elouisse Desiree inundava o estabelecimento com sua bela voz...

Uma música que era tão bela e única, anjos caídos ouviam a melodia e choravam.

Lá estavam os piores tipos da região. Cada um com seus demônios. E eu com os meus... 

Só queria fugir de mim, dela... De todos. Sentia apenas aquele azedume. Ácido, só precisava me enclausurar. Mas não adiantaria muito.

Já desesperado e ao mesmo tempo aliviado vi quando uma linda mulher senta-se a mesa.

- Olá, não pude deixar de te observar, posso me sentar?
- Sim, claro. A que devo a honra de uma bela mulher se interessar por tão pouco?

- Apenas diversão meu caro. Tens fogo?
- Sim (acende o cigarro). Tens uma voz angelical.

- Obrigada. Eis o que proponho. Uma noite de luxúria, sem ordem ou pudor algum. E após isso, nunca mais nos vemos. O que acha?
- Sou direta e pego o que quero. Você será meu por hoje.

Intrigado com tal proposta e assustado com a abordagem nada convencional ele apenas balança a cabeça positivamente. 

- Vou provar que você não é nada, te levar ao céu e deixa-lo no inferno. Venha comigo...





[Continua...]

quarta-feira, março 16, 2011

Sono...

Noite boa, sono bom... Hora de trabalhar e já tenho que ir. Aquele bom e velho fantasma que tanto me fez sofrer retorna aos meus sonhos. Desta vez, ele não se mostra um peso, não traz dor. Só sorri. Antes achava que me seguiam, que ele me seguia. Mas a verdade é que ninguém queria saber de mim. 

Agora, tenho uma dor no lado esquerdo do coração, constante e boa. E ele está ali, a me observar sussurrando "não me esqueci de você...". Droga! Até onde se tem que ir para ser livre de suas escolhas e erros?

Tento disfarçar, volto a trabalhar normalmente. Mas tudo o que consigo fazer é me olhar no espelho e o que vejo é meu reflexo como um cão, que muito apanhou e ainda assim abana o rabo para o dono. Aquele ser assustador, não tem nome mas tem imagem. E é exatamente a mim que vejo quando olho firmemente e o encaro. 

Odeio esse meu lado... Vamos enterra-lo.





segunda-feira, março 14, 2011

A lanterna [Pt. 1]

Na insólita juventude o que poderia esperar do mundo além de apenas felicidade. Vivia os dias de maneira simples preocupado apenas com o "golzinho" do final de tarde ou em ir à escola. Bons tempos.

Sonhava com a possibilidade de viver aqui para sempre, uma juventude eterna... Felicidade imensurável, indelével. Com os dias se passando, a inocência foi se desfalecendo, ora o mundo já não era tão simples. Não podia simplesmente sorrir e esperar um sorriso de volta. Expressões sombrias e rancinzas começavam a ser frequentes ao derredor.

Um belo dia, ao acordar tudo parecia diferente. Não queria sair da cama como costumeiramente era o hábito. - Será que eu cresci? Pensei rapidamente, pois pareço sem graça e rancinza. O que poderia ser tão forte a ponto de me mudar? Não estava pronto ainda pra trocar a alegria diária por momentos ínfimos como fazem os adultos. Quero mais! Não posso. Ainda não...

Continua...