sábado, fevereiro 17, 2007

17 de Fevereiro de 2007.




"Onde você vai estar hoje à noite?"


“... Ele chegara à algum tempo. Sem reparar os que passam. E há uma sombra em seu caminho que o persegue. Por isso está aqui. "Talvez uma sombra em seu espírito Pietro..."

"Não sei Lara, mas hoje ele está estranho."

"O que ele está fazendo?" "Olhando para suas mãos, Pietro." Os estranhos olham para o teto de zinco, os vitrais não conseguem deter a luz, que reflete as imagens na parede. Ele abre os olhos, as pessoas estão chegando. "Já vai começar Lara." "Sim, ele vai embora?!" "Ele quer ficar, mas não irá". Ele levanta e sai. "Vamos atrás dele?" "Sim, como todos os dias".

Atrás dele há o rastro de fé que move todos para dentro do velho prédio tombado pelo tempo e segurado pelos santos pela eternidade afora. "Hoje eu vi seus olhos Pietro, estavam queimado pelas lágrimas. Sua língua salgada...". "Não há arco-íris nos olhos sem lágrimas Lara... Ele não quer duvidar". "Uma vez cheguei a achar que fosse duvidar Pietro, mas tudo que tinha era medo de mim mesma, e o medo é a pura ausência de conhecimento". "Ele não consegue ver a si mesmo Lara".

Enquanto andava vagamente lúcido as luzes amareladas dos postes já acendiam sobre sua cabeça, enquanto os estranhos o seguiam de longe.

"Onde ele quer chegar?"

Em frente ao Lago do Esquecimento, no velho banco onde passou Fausto, ele se assenta esperando e esperando...

"O que ele espera Pietro". "A Barca dos Homens Lara".

"Ele pode beber dessa água...".

"Esquecer a si mesmo...". "Não há pecado maior".

Em cima do velho ébano, os estranhos observava-o sentado à beira do Lago do Esquecimento, esperando a barca dos Homens...

“... À margem do rio Tártaro na lúgubre terra de Limbo, estava o estranho à esperar. Um tanto perdido e confuso olhava as águas turvas do rio desejando sua vida lembrar. Tendo duas moedas de douradas nas mãos, roupas fúnebres cobrindo o corpo, descalço de alma cansada, aguardando o barqueiro chegar”.

“Ò vil barqueiro das águas lacrimais”! Apressa-te ao encontro desse peregrino de vis flagelos que tanto almeja à outra margem do rio negro chegar! Venha, terrível remador da Barca dos Homens! Tu, com seus remos nas mãos e que conduz esse maldito barco por essas águas cor de ébano. Venha maldito!

A desesperança me assola, todavia, o medo não existe mais. Tenho um flagelo na alma e duas moedas nas mãos, que serão dadas a quem me levar à outra margem. A salvação me aguarda ao lado da Fonte da Vida. Diga então vil barqueiro, “qual o preço cobrarás para levar-me em teu barco?”.

Ele dizia em seu coração...

Ele chora. Instantes que a alma se torna cristalina, pura. De longe ela o vê... De longe ela o sente.
Então ele a ouve. Ela diz: Acalanto

Dê-me teu corpo para que me aqueça

Dê-me teu cheiro para entorpecer minha dor

Teu suor como bálsamo em minhas feridas

Teus beijos enebriando meus sentidos

Como álamo que acalma

Como Mirra que perfuma

Absinto que purifica

Assim, sinto você mais perto...

Ele abriu os olhos mais uma vez...

E não viu o lago negro à sua frente, nem o velho ébano. Perdeu-se da vista dos estranhos, e acordou sob o sol cadente em raios primaveris.

Ele olhou à sua volta e... Ela estava sentada, colhendo dentes-de-leão, debaixo do grande ébano florido - escarlate.

Seus cabelos como fios de ouro reluziam sob o ardente sol primaveril que traspassava seu lúcido esplendor pelas frestas dos pávidos galhos da serena árvore. Descansava à sombra da quietude e da mansidão. Seu rosto como uma rósea flor num halo de candura.

Expressava uma alegria etérea que afastava para longe minha melancolia.

Seu séqüito majestoso coloria o verdejante gramado com uma ânfora de cores. E seu agridoce olor destilava um bálsamo de cânfora que inebriava meus sentidos. Suas alvas mãos de deidade se voltaram para um livro prateado escrito com letras douradas. E o suave e harmonioso som de sua voz parecia entoar palavras encantadas...

Então, ela sorriu para mim e suspirou docemente.

Como uma labareda incalma, minh´alma se pôs à indagá-la o que dizia o livro sobre o prelúdio porvir triste de minha vida.

O coração trêmulo ansiava a esperada resposta...

Ela estava sentada, colhendo dentes-de-leão, debaixo do grande ébano florido - escarlate.
Seus cabelos como fios de ouro reluziam sob o ardente sol primaveril que traspassava seu lúcido esplendor pelas frestas dos pávidos galhos da serena árvore.

Descansava à sombra da quietude e da mansidão.

Seu rosto como uma rósea flor num halo de candura.

Expressava uma alegria etérea que afastava para longe minha melancolia.

Com a alma flora sublime, que é graça e sutileza, a mística princesa segurou minhas mãos e com seu puro olhar de anis, que evocava visões de meu passado distante, capturou os meus olhos e dilacerou o meu peito amargo; então me disse em uma estranha língua:
"_Eu te amo. Você pode amar também."

Uma lúcida e lívida razão apoderou-se de mim. Não mais sentia o desânimo voraz que me assolava noite e dia.
Ela fechou seu livro mágico; pôs-se em pé - suas vestes como uma apoteose de asas girava em torno de mim - então, se inclinou e sussurrou em meu ouvido:

"_Meu nome é Esperança."

Adormeci à sombra do grande ébano - madeira negra, aos pés de Esperança.
Acordei sob o céu estrelado, sentindo no rosto uma leve brisa de saudade, trazendo com ela, pétalas carmesins e dentes-de-leão.

Hoje não mais teme o sol.

Talvez ele esteja cansado de vagar por entre cavernas e abismos. Partirá para além dos altos montes do solitário ermo, a fim de encontrar o lugar para onde ela se foi:



Sua Esperança.







[Sam.]

Um comentário:

samperegrino disse...

FAZ UM TEMPÃO ISSO!! Eu lembro desses poemas fragmentados.